Ana Guiomar: “Casar é como os cheques, já não se usa”

Fevereiro 6th, 2010 Colocado em Morangos

Estreou-se aos 14 anos na série Morangos com Açúcar, mas garante que não perdeu pitada da adolescência. Para sair à noite, Ana Guiomar recorda que eram os colegas mais velhos, como Cláudia Vieira, quem pedia autorização aos seus pais.

– Terminou recentemente as gravações da telenovela Perfeito Coração. Como correu este projecto?

Adorei, diverti-me imenso a fazer a cabeleireira Maria da Luz, gostei muito das pessoas com quem contracenei – e só espero que o próximo projecto tenha tão bom ambiente como este teve. O grupo era maravilhoso.

– E a sua personagem?

– Foi um desafio muito engraçado. Ao princípio comecei com um bocadinho de medo mas as coisas correram mesmo bem e aprendi muita coisa. Dizem que não há amor como o primeiro mas eu apaixonei-me perdidamente pela Maria da Luz, por isso guardo-a com um carinho muito especial.

– Tem alguma coisa a ver consigo?

– A minha mãe acha que sim (risos) mas eu acho que não. A personagem é completamente louca, gosta de uma boa discussão, de chocar as pessoas, e eu sou muito mais calminha. A Maria da Luz não anda propriamente rodeada das melhores companhias e tem um dedinho para se meter em confusões.

– Como foi trabalhar com a Luciana Abreu?

– Já me tinha cruzado com a Luciana em Dança Comigo mas não tivemos muito tempo para falar, por isso foi uma boa surpresa. Gostei muito de trabalhar com ela, demo-nos bem, ríamos e brincávamos. O nosso núcleo era mesmo muito giro, não havia ninguém que se desse mal.

– A sua personagem trabalha num cabeleireiro. Desenrascou-se bem?

– Andei a aprender. Ao início, quando me disseram que tinha um cabeleireiro, pensei que não iria ter de fazer tanta coisa. Mas tive mesmo de lavar o cabelo aos figurantes, pôr rolos e fingir que lhes cortava o cabelo. E julgo que me safei bem. Foi mesmo muito giro…

– Qual é o projecto que se segue?

– Ainda não sei. Neste momento estou de férias e acho que só a partir do mês de Março é que me vou começar a preocupar a sério. Agora preciso mesmo é de libertar esta personagem e arranjar energias para fazer outro projecto que aí venha. Depois, queria muito fazer teatro. Não sei se vai ser possível ou não mas gostava bastante de ir por aí.

– Começou com 14 anos, em Morangos com Açúcar. Agora, com 21, consegue ver a sua evolução?

– Penso que se nota o crescimento, não sei é se foi muito ou pouco. Depois, acaba por ser engraçado, porque as pessoas, quando me abordam na rua, julgam sempre que eu sou mais velha. Dão-me 24 ou 25 anos, e quando digo que só tenho 21 anos justificam: “Como já estou habituada a vê-la há tanto tempo na televisão, penso que já é mais velha”.

– Reage bem às abordagens do público?

– Claro que sim. Não me incomoda nada que venham falar comigo, até porque o fazem sempre de uma maneira simpática. Não sou nada daquelas pessoas que dizem “Ai, agora não posso ir ao shop-ping porque as pessoas vêm ter comigo”. Nem pensar… Até porque não sou mediática a esse ponto.

– Antes de Perfeito Coração protagonizou uma personagem lésbica. Como eram as abordagens do público nessa altura?

– Ao contrário do que se pensa, Portugal já está muito aberto para este tipo de assuntos. Tanto que as pessoas reagiram normalmente e não houve comentários nenhuns relativamente ao facto de fazer uma personagem lésbica. A mim também não me fez confusão nenhuma. Se não houver cenas gratuitas não tem mal nenhum e faz parte do trabalho como actriz. Para mim foi uma personagem igual às outras. Não tenho preconceitos nenhuns e, inclusive, sou a favor do casamento homossexual, que nem devia ser discutível.

– Tem saudades dos tempos de Morangos com Açúcar?

– Já foi quase há cinco anos, e claro que tenho saudades, mas não ao ponto de pensar que aquilo é que eram bons tempos. Vivo o presente, e penso que se voltasse a fazer uma novela desse género nada iria ser como antes, porque foi a minha primeira vez. Divertimo-nos muito, o nosso grupo era espectacular, crescemos juntos. E todos os meus amigos de hoje são dos Morangos.

– Era muito nova. O que lhe disseram os seus pais quando, aos 14 anos, decidiu tentar a sorte como actriz?

– O meu pai só me pediu que eu não deixasse de ter boas notas e a minha mãe disse que se era aquilo que eu queria que tentasse aproveitar a oportunidade.

– Foi então viver sozinha para Lisboa?

– Não, eu fiz os Morangos todos a viver em casa da minha mãe, em Torres Vedras, e só fui morar sozinha quando fiz 18 anos, quando comecei a fazer a peça Confissões de Adolescente, em que tinha ensaios à noite e era mais complicado. Nos Morangos, os meus pais iam-me levar e buscar às gravações.

– Sentiu muito a falta da família?

– Claro que senti a falta da minha avó, que vive connosco, do meu avô, dos cães, mas os meus pais sempre me acompanharam bastante e quando podiam iam visitar-me. E eu faço o mesmo: todas as semanas tenho de ir a casa dos meus pais. Faz parte da rotina, não há volta a dar-lhe.

– Na adolescência, deu muitas preocupações à sua família?

– Julgo que não, até porque entrei nos Morangos com 14 anos e saí com 17, por isso a minha adolescência foi passada lá. Como tínhamos uma produção fantástica e colegas bem mais velhos como a Cláudia Vieira, a Rita Pereira ou o Pedro Teixeira, eu acho que eles nos acompanharam muito bem. Eu era a menina, a mais pequenina, protegiam-me imenso, e quando era para sair à noite até falavam com os meus pais, para eles não se preocuparem. Foi muito giro.

– Sente que perdeu alguma coisa?

– Sinto que até ganhei. Fiz tudo o que iria fazer cá fora, mesmo estando a trabalhar na novela.

– O que é que comprou com o primeiro ordenado de Morangos, aos 14 anos?

– Uma cabina de hidromassagem, que ainda hoje tenho. (risos) Foi bom ter o meu dinheirinho cedo, porque mesmo que não precisasse é bom olhar para a conta bancária mais tarde.

– Acabou por deixar os estudos…

– Falta-me acabar algumas disciplinas do 12º ano mas quero entrar para a faculdade para o ano que vem. Ainda não sei é para que curso. Gosto muito de Direito mas é muito complicado de conciliar. Acima de tudo, não quero entrar para a faculdade para dizer que tenho um curso mas porque penso que é importante para uma pessoa “reciclar-se”. Gosto de Ciências Políticas, de Filosofia, por isso logo se vê.

– Nunca pensou ir estudar para fora?

– Não é uma coisa em que pense muito. Para a minha formação pessoal ia ser muito bom mas julgo que ainda não estou no patamar em que me possa ausentar um ou dois anos do País pois, se calhar, ia perder cá trabalhos que gostava de fazer. E mesmo que fosse para fora, preferia ir para o Brasil, que julgo que está muito mais direccionado para o nosso mercado.

– Gostava de tentar uma carreira internacional, como está a acontecer agora com a Daniela Ruah?

– Penso que todos os actores gostavam. O caso da Daniela Ruah é muito específico, porque ela tem dupla nacionalidade e fala maravilhosamente bem inglês e eu não sou assim. Claro que era muito bom conseguir uma carreira internacional mas não sei se é viável. Mas, para mim, ela ter conseguido lá chegar é muito bom. Já a vi, está maravilhosa, e tenho muito orgulho de ela nos estar a representar desta maneira.

– Sente que há muita rivalidade no meio artístico?

– Nunca senti, mas também porque ainda sou muito miúda em relação à maior parte dos actores. Entre os outros actores, acho que deve haver, como em todas as profissões. Eu nunca senti nem dou muito espaço para isso, cada um faz o seu trabalho o melhor que pode. E não devia haver rivalidades, porque há personagens que têm perfis tão diferentes que nem sequer se pode comparar actores.

– Namora desde os tempos de Morangos com a mesma pessoa [Diogo Valsassina]. Qual é o segredo para a relação persistir?

– Não há nenhum segredo especial, e talvez o único seja darmo-nos bem, divertirmo–nos juntos e respeitarmo-nos.

– Ele costuma, entretanto, acompanhar o seu trabalho?

– Às vezes, no entanto ele não é muito de novelas. (risos)

– E a sua família, o que diz?

– Os meus pais, quando podem, vêem, mas não são do género de eu ir concorrer a alguma coisa e vestirem uma camisola com a minha cara. Apoiam-me nesta como em qualquer outra profissão que eu tivesse escolhido. Os meus irmãos nem ligam. Estão na adolescência e querem é jogar à bola e brincar. Aliás, eles até escondem que são meus irmãos, porque os miúdos, nessas idades, são muito cruéis. Para eles eu sou a mana Ana e nada mais do que isso.

– Com que idade é que se imagina a ser mãe?

– Maternidade?… Não penso nisso mas gosto muito dos filhos dos outros. (risos) Não me consigo projectar a esse nível mas penso que vou querer uma família pequena, como a minha. A minha mãe não tem irmãos, o meu pai só tem uma irmã, e nunca tive aqueles Natais com 50 pessoas à mesa. Mas logo se vê… Nem sequer penso nisso.

– E casar, gostava?

– Isso então ainda penso muito menos. Acho que casar é como os cheques, já não se usa. Não me importava de me vestir de noiva para um catálogo mas não sinto o apelo do casamento. Não é um sonho.

– Agora que está de férias, tem aproveitado para namorar?

– Sim e não só. Fiz uma viagem para o calor, em que me divertir imenso e vou continuar a descansar durante mais um tempinho. Acho que a seguir a nove meses de gravações é preciso sempre um ou dois meses de pausa, que é o que estou a fazer. Tenho aproveitado para ir cinema, teatro, ao ginásio e, claro, para fazer aquelas coisas que todas as mulheres gostam, como arranjar as unhas, o cabelo e ir às compras, o que é óptimo agora na altura dos saldos. De resto, apesar de estar de férias a nível de televisão, continuo a ter as locuções de desenhos animados e publicidade, por isso não estou completamente parada.

– Disse que aproveita para ir ao ginásio. É muito preocupada com a imagem?

– Agora estou um bocadinho mais vaidosa, mas também acho que, com 21 anos, estou na idade de começar a fazer ginásio, que é óptimo não só para o corpo como para a mente. Mas confesso que sou um bocadinho preguiçosa. Eu às vezes vou à rua e passo frio para não ter de vestir o casaco (risos). Mas só na minha vida pessoal, porque no trabalho sou exactamente o oposto.

– E gosta de ver a sua imagem na televisão?

– Nunca vai deixar de ser estranho ver-me na televisão, porque um actor nunca se gosta de ver. No meu caso, estranho sempre a minha voz, mas já estou mais habituada. Na primeira vez em que me vi era tão miúda que até achei piada. A verdade é que vejo telenovelas, porque é sempre um bom exercício para aprender.

– Antes de surgir o casting para os Morangos, lembra-se o que queria ser?

– Eu queria ser farmacêutica e ainda tenho essa paranóia, porque quando era miúda adorava ir à farmácia e sentir aquele cheiro a medicamentos (risos). Acho que, na altura, ainda não tinha pensado muito bem no que queria seguir, mas a partir do momento em que entrei para os Morangos e depois de lá estar pensei que era mesmo isto que queria fazer, porque aqui posso ser farmacêutica e todas as outras profissões.

INTIMIDADES

– Quem gostaria de convidar para um jantar a dois?

– O Tarantino, é um dos meus realizadores preferidos.

– Não consigo resistir a…

– Sapatos. Tenho muitos, e quando vou às compras é aquilo em que mais me perco.

– Se pudesse alterar alguma coisa no corpo e no feitio, o que mudava?

– Considero que sou um bocadinho egoísta, por isso mudava esse aspecto no meu feitio. No meu corpo, dava-me mais dez centímetros, para ser um bocadinho mais alta.

– Sinto-me melhor quando…

– Está calor.

– O que não suporta no sexo oposto?

– O mesmo defeito que mudava em mim: o egoísmo.

– Qual é o seu pequeno crime diário?

– O chocolate. Sou mesmo viciada.

– O que seria mesmo capaz de fazer por amor?

– É muito complicado responder a essa pergunta. Julgo que depende sempre da situação.

– Complete: a minha vida é…

– Espectacular.

Fonte: Correio da Manhã


1 Comentário em “Ana Guiomar: “Casar é como os cheques, já não se usa””

  1. Vania Raquel Says:

    Sem duvida, é a melhor actriz da sua geração!
    Pedro Caeiro e Ana Guiomar – 2 actores do melhor Q se deram a conhcer nesta novela.
    Estes anos segui e segirei esta novela 🙂



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